Sabe aquela aflição? Às vezes eu acho que sei. Faltam poucos minutos para um compromisso, ou para alguma atividade, ou para alguma coisa a se fazer que só depende de você; esse mesmo você se encontra estático em algum lugar sem previsão de se mexer para realizar seu compromisso, ou atividade, ou aquela coisa que só depende de você. Ao pensar nessa sua falta de iniciativa ou incapacidade de se ‘mover’, isso tudo em frações de segundos, esses minutos se tornam meios minutos. Esses mesmos meios minutos te fazem questionar se o culpado é você ou alguma força externa. Chega-se a primeira parte da aflição. A segunda surge logo após a primeira, em questão de meia fração de minutos dos meios minutos – temos, então, o fato consumado do seu estado estagnado. Ao se ver estagnado temos a terceira fase da aflição: o que fazer para sair desse estado? Se permanecermos parados voltamos à primeira fase da aflição, como decorrência disso, essa atividade aflitiva se torna uma simetria cíclica. Essa função matemática não é tão exata. Se em vez de continuarmos parados nos movermos, essa ação contrária de ficar parado nos leva ao mesmo estado de aflição. Acabo por me sentir dentro de uma jaula (com a porta aberta), onde penso “se ficar o bicho come se correr o bicho pega”. E, se talvez, fechar a jaula, o temível bicho não entra e permaneço vivo. Talvez ela não tenha cadeado. Talvez o bicho nem exista. Talvez essa aflição não passe só do fato de, às vezes, esquecer que sou apenas humano.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
segunda-feira, 5 de maio de 2008
0111100 1111100 1001101 001100 .

Hoje acordei com uma vontade louca de devorar palavras. Sou Saturno de Goya devorando, com os olhos, os filhos dispostos em letras. O que fazer para saciar minha vontade? Tenho 20 anos e mal tenho os dois pés nessa estrada da vida. Tenho 20 anos e vivo no ano 2008, 2009, 2010 e, por sorte, os demais 201...quero ter ou, apenas, ter a capacidade de me transportar para uma época que a leitura esteja como as primeiras atividades de entretenimento. Chega de chegar em casa com o dedo indicador espichado que, com uma inexplicável alma própria, me guia diretamente para o power da torre do computador. Pronto. As palavras binárias não me satisfazem. E agora? E agora...tenho 20 anos e, até agora, meus dedos tatearam mais os botões do teclado do que páginas de livros. To com a fome acumulada. Anos sem ler boas páginas materiais, sem sentir o cheiro de um livro aberto, sem ter o prazer de acabar um livro, ou de ter pena de terminar um bom livro. O sonho da razão produz monstros – racionalizar meu vazio só me torna mais cavo. 127 V e 60W esperam ser ligados na sala, perto do sofá, com o dedo indicador de outrora descerrar-se-á o livro. Aberta, a boca míngua espera, aflita, para devorar cada palavra.
sábado, 1 de setembro de 2007
Até Quantum?
A cada passo que dava, a pegada do anterior se apagava. A cada decisão tomada, o destino se tornava mais indecidível. Quanto mais perto estava da resposta, mais rápido ela fugia. A determinação da vontade crescia enquanto a realidade minguava.
Todos os momentos se conectaram em uma complexa rede de acontecimentos. A teia de caminhos se expandiu até se entrelaçar por completo. E foi nesse momento que o tempo deixou de ser progressivo. Toda e qualquer direção era ambígua; final e começo era começo e final.
Até que, por fim, não se lembrou mais do que procurava.
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
Incompletude
taram
O cor
dão
Vazio
Vazio
Vazio
Comprei um carro
Agora sim
Felicidade!
Uma semana
Duas semanas
Vazio
Vazio
Vazio
Encontrei Maria
Agora sim
Felicidade!
Um mês
Dois meses
Vazio
Vazio
Vazio
Nasceu Joãozinho
Agora sim
Felicidade!
Um ano
Dois anos
Vazio
Vazio
Vazio
E agora?
Olhei dentro de mim
Vazio...
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Do outro lado I
Dia (18/12/06)
A palavra “começar” nunca foi tão real. Está começando, esse gerúndio fica ecoando em minha cabeça e, agora, as primeiras palavras estrangeiras estão entrando pelos meus ouvidos. Estou, ainda, em solo brasileiro, mas já me sinto entregue a ares alheios. G38 é minha cadeira. João e Edgar estão na frente; nossos olhos se aventuram em jornais espanhóis.
(...)
Dia (03/01/07)
Estamos agora em direção a Roma. 25 horas entre trens e estações.
Saio de Barcelona com a cabeça tranqüila, mas extremamente cansado. Fizemos bastante coisas: Sagrada Família, Parque Güel, Palau de la musica; também nos aventuramos fora de Barcelona. Em Monteserrat, nos vimos subindo 1.300metros de altitude, o lugar é lindo e a capela impressionante, a mais bela que já vi.
Nosso quarto parecia um rodízio de mulheres. No começo éramos nós com mais dois brasileiros, estes deram lugar a duas japonesas com quem conversamos e nos ofereceram uma fruta típica japonesa (pior coisa que já comi na vida). Depois chegou duas brasileiras, Mariana e a outra chamada Laura, além, de duas russas. (...). Depois chegaram um grupo de brasileiras e fizemos amizade. Nas nossas ultimas duas noites tentamos aproveitar o máximo. Na derradeira fomos na Sunset, uma boate que fica em um shopping em um porto. As boates são de graça, muito cheias e com um clima muito diferente das do Rio – mais agitadas, com uma maneira despretensiosa de se divertir.
Alguns pequenos estresses já começaram a surgir, mas é natural. Comemos ontem e hoje em um buffet chamado Fresco – Henrique roubou algumas frutas para servir de reserva durante a nossa jornada ruma a Roma.
***
Olho para minha esquerda e vejo o mar. Nice. Estamos partindo – metade da viagem até Roma já se passou.
Perdemos um Guia ( Europa) e nossa bola; tive que falar algumas palavras em francês.
Estou com uma tosse muito chata e ainda cansamos, mesmo dormindo um pouco.
A ficha está caindo. Cada vez mais. A ficha vai diminuindo de tamanho e, assim, acaba ficando com menos aderência com o ar e continua sempre caindo – mais rápido, rápido e rápido. Dois países já se foram, estamos na França, mas esse não conta. Lembro dos dias que nos organizamos para estruturar a viagem, parecia algo tão distante e irreal e agora estamos vivendo mais do que nunca ela. Fico pensando como vai ser a volta para o Brasil, ver quanto minha cabeça mudou, saber realmente como foi me virar por conta própia. Ver minha cidade onde moro com outros olhos.
domingo, 26 de agosto de 2007
Um cabide em cima da mesa. Canetas e moedas fazem companhia para o objeto de madeira, que, sem seu oficio de pendurar roupas gera olhares curiosos. A mesa não se encontra em nenhum quarto ou escritório; sua sombra pode ser vista no chão de uma estrada de terra – o sol das três o castiga.
A sombra se desfaz lentamente, as cigarras na beira da estrada afiam suas vozes. Sons de carros e vulcões em erupções colam na paisagem, agora, escura.
Na zona Minami-Ku em Quioto, Yamada Hanako acorda assustado. O suor de sua testa escorre, sua boca salgada se move em silencio; mais um sonho.
